27 Outubro 2009
uma prece, quem sabe..
Um dia
tudo o que eu disse
há de ser lembrado,
comentado e criticado.
Há de ser revisto,
reeditado
e utilizado.
E o que eu pensei
estará correto.
O que eu criei
será concreto.
O que eu amei
estará por perto.
Assim seja!
04 Setembro 2008

Em meio a papéis antigos, num caderno que eu já não abria há tempos, acho trechos de grandes escritores. Um deles, de um cronista moderno, dizia
"A leveza da camisa sob a brisa
E a borboleta que alisa o ar,
Silenciosas".
Nada de especial. Apenas lembrava bem o dia..
Observei o céu se formando em nuvens. O Sol ainda forte, projetado no chão da sala, se arrastava lento como um caracol, preguiçoso como eu. A brisa que entrava pela janela tentava trazer consigo um pouco de alento, fazia-me um afago. Queria me refrescar desse Sol que não queima. Assim eu o imagino.
“Aí, entrou a borboleta. Era colorida e percorreu a casa feito uma benção. Depois, saiu, breve como tudo que é divino.
E até hoje eu imagino que era ela quem fazia o vento com o movimento de suas asas...”
05 Agosto 2008
sobre escadas..

Sempre quando desço mais de um andar de escadas já não sei mais em que andar estou.
É que entre uma passada e outra das pernas eu vou prestando atenção nos degraus, pra não tropeçar. Mas em pouco tempo o ato já se tornou automático o sufuciente pra que o meu cérebro (tão involuntário quanto um coração) se perca em memórias, devaneios, filosofâncias...
E quando dou por mim já não sei se desci dois, três ou quantos lances de escada.
Paro. Olho em volta tentando me situar. Começo a rir da situação.
E o interessante é que, exatamente nesse momento sempre passa uma pessoa por mim e, como me vê sorrindo, começa a rir também.
Apesar de perdida, fIco alegre por ter feito alguém, mesmo que por educação, sorrir.
um conto

Andava distraidamente pela rua, olhando fachadas. Parecia até que trilhava seu caminho pelas nuvens. Não observava esquinas nem os semáforos. Nem ao menos lembrava onde tinha de ir, mas sabia que era pra lá.
Viu na janela de um cortiço um casal conversando. Ambos idosos, sorridentes. Imaginou que falavam de memórias. Ele contava a ela da sua primeira viagem de navio, há décadas atrás. Na verdade, preferia imaginar as conversas dos outros a realmente ouvi-las. O mundo real era quase sempre tão monótono que inventar diálogos para cenas cotidianas tornou-se sua única diversão.
Bastava ver alguém conversando que já começava a imaginar. Preferia pessoas que tivessem distantes, mas a poucos metros. Assim era possível avaliar cuidadosamente seus semblantes e perceber os sentimentos e sensações que permeavam o assunto. Mas como não os ouvia, a imaginação corria livre, sem qualquer menção à realidade.
Certa vez ficou na janela do seu quarto observando um mendigo e uma senhora discutirem. Ela certamente lhe mandava criar vergonha e ir logo tomar banho, afinal um homem da sua patente não poderia ficar vestido daquela maneira, nem sentar-se ao chão em plena avenida. Ele, calmo e paciente explicou-lhe, apenas nas entrelinhas, que aquilo tudo era um plano ultra-secreto do serviço de inteligência britânica para desmascarar contrabandistas de informações, e ele, fiel combatente, estava ali disfarçado a espreita dos criminosos, quase os desmascarando.
Às vezes pensava que estava enlouquecendo. Mas logo concluía que toda imaginação deveria ser avaliada como uma virtude, como um belo escapismo aos problemas da realidade.
Assim, pensando na vida, nem percebeu o quanto já tinha andado. E antes de chegar ao seu destino ainda observou uma criança que tentava explicar ao irmãozinho a nova conjuntura econômica do sudeste asiático e se divertiu ao ver duas mulheres, ambas com seus 30 e poucos anos, discutindo fervorosamente qual delas, quando mais jovem, fez as maiores bolhas de sabão.
reiventando até Leminski

"uma boa gambiarra
leva dias
cinco juntando bugigangas,
mais cinco procurando o durex,
seis encaixando pauzinhos,
nove admirando o efeito,
sete levando choque,
quatro andando pela casa,
três mudando de idéia,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
aproveitando o novo."
inquietâncias

Há tempos parei de contar as estrelas do céu. Nem todas as promessas que fiz vou fazer questão de cumprir. O senso-comum não me satisfaz mais. Hoje sou mais do que ontem e aguardo ansiosamente que o amanhã me traga alento e leve embora a saudade.
Mudo a cada instante..
corpo pensante, inquieto, impreciso, indeciso, inconstante...
Pouco acredito em coisas que não posso ver ou provar. Não nasci com futuro pré-determinado. Tenho a chance de errar pra ver como que é. E sem querer, acabo usando todas as chances que tenho. Mas só às vezes me arrependo do que fiz.
Redundante, continuo..
Sempre inquieto; cada vez mais indeciso; altamente inconstante, um tanto quanto impreciso. Tomara que ao menos eu continue pensante.
diário de bordo

Trânsito totalmente parado. A avenida em obras e eu ali pensando na vida, por pura falta do que fazer. Pensei em pegar o caderno e aproveitar aquele tempinho pra adiantar a matéria (sempre!) atrasada. Cheguei até a abrir a mochila, mas desisti em tempo quando percebi no céu azul uma nuvem branquinha em forma de urso.
Pensei: "Parece até que não tive infância." Engraçado como a imaginação nos leva longe, não é? Engraçado e curioso. Peguei-me então a pensar como será que isso acontece.
Eu nem lembrava mais da brincadeira de procurar desenhos em nuvens, mas daquela conversa que me deixou "com a pulga atrás da orelha" eu me recordo a toda hora.
"Aquela nuvem ali até parece uma pulga", pensei. Meio esmagada e sem duas patinhas mas parece.. Idêntica a minha inquietação. Uma idéia pequena, uma intuição talvez, meio distorcida e ainda faltando partes.
Talvez eu não me lembre bem da infância porque naquela época não perdia tempo recordando fatos, remoendo idéias, mas apenas vivia o momento presente sem maiores (ou nenhumas!) preocupações. Como disse Cecília Meireles
"Sede assim: qualquer coisa isenta, serena e fiel.
Flor que se cumpre sem perguntas"
O ônibus deu uma arrancada. Quase cai.
Numa última olhada pro céu vi que o urso tinha sido empurrado pelo vento e agora mais parecia um altere de musculação. E a pulga já tava fora do meu ângulo de visão.
Talvez seja melhor assim.. Esquecer essa e outras "pulgas" e seguir o conselho da Cecília Meireles e esperar para ver no que vai dar. Difícil é ser isenta,serena e fiel...

A cada novo dia aumenta aquilo que alguém ousou chamar "intimidade".
Sem pudor algum conto-lhe até os segredos inconfessáveis.
Nem é preciso falar muito. O olhar já se comunica melhor que os argumentos.
E tudo acontece com uma inexplicável sintonia, como se fosse possível prever atos, comungar pensamentos..
E até as simples palavras que eu não ousava ao menos sussurrar, embora tivesse vontade a tempo, ganham finalmente a luz.
E se deixam dizer como resumo de todo um jogo de lapsos, equívocos e encontros a que chamaremos história, nossa história - tão ínfima e única, tão preciosa.
E sem me importar com o que os outro acham - ou com o que venham a dizer - eu falo, e repito o quanto puder...
eu te amo
diário de bordo

No topo do monte contemplo as estrelas saltadas pela escuridão da lua nova. Transporto-me pra perto delas e vou juntando pedaços de mim, feito constelações de idéias.
"no céu.. um circulo fez
e eu o que fiz
o mesmo outra vez"
Mas qualquer barulho me traz de volta. Tenho medo do que pode surgir em meio a escuridão. Receio pessoas ou lembranças que venham me assustar.
"os cães.. latem pra me censurar
mas nem vou argumentar
com individuos assim"
A sensação de efemeridade me acompanha até em casa. É preciso fazer valer esse tempo que se intercala entre sentimentos tão inversos, até opostos. Fazer-se renovar a cada sensação, se preciso.
"o sol.. nasceu e morreu(as citações são da canção "Ninguém", do Pato Fu)
e eu ainda não
um dia talvez"
dia bonito

Momentos desconexos formados pelo que há de melhor aqui dentro de mim. Recortes de imagens, que passam pela mente como se ainda estivessem acontecendo.
Puxe uma cadeira e fique à vontade.
Cervejas no freezer.
quem sabe um banho de chá?
música perfeita e a lua cheia iluminando o caminho..
algo tão inimaginável quanto a casa da Bruxa do 71 por dentro. Mas eu já vi.
Prometo que volto a tempo da nossa temporada das flores.
amigos me encontram vestindo meu melhor sorriso
Estranho, mas não tem nenhuma ocorrência de “puxuxuka” no Google..
e nunca comi algo tão bom que seja feito de carne e madeira.
Pra gente se encontrar num sonho bom
O bom de dormir cedo é ficar acordado no meio da madrugada.
Me vi no vermelho do seu rosto.
E outras coisas que a mamãe não deixa..
tome água, é sempre bom
infinito vezes infinito ao quadrado..
Só pra constar, tenho medo de crianças poliglotas.
(originalmente postado em 14/09/06)
talvez idéias soltas tenham mais a dizer..

malditas grandes teorias..
cheias de dialéticas que eu não entendo
de materialismos que eu não enxergo
falando de situações que, na verdade, não existem.
...
para o bem ou para o mal
conhecimentos são sempre válidos
só não quero virar um desses intelectuais chatos
discutindo sobre a Ásia Central em pleno jantar
...
aliás,
pobres intelectuais..
não saberão da metade
do que aprendi nas canções
o mendigo

Ele tinha linhagem nobre. Ou pelo menos acreditava nisso. Falava alto, aos que passavam, do dia em que foi muito rico. E esses, os que passavam, fingiam não escutá-lo, preferiam não ter que vê-lo. Olhavam pro lado, afinal, gente assim é melhor não considerar.
E ele, o mendigo, continuava ali. Parado na esquina gritando devaneios. Falando dos seus dias de nobreza. De repente sentou-se. No chão mesmo, sobre um jornal dobrado. Calou-se e estendeu o caneco em que recolhia as moedas que lhe eram jogadas. Em silêncio continuou.
Eu fui andando, mas fiquei pensando nas coisas que o mendigo falou. Será que ele realmente foi rico? Ou seriam apenas loucuras? Fiquei imaginando o que um nobre pensaria se tivesse que sentar ali, naquele chão do centro cidade.
Interessante pensar no chão das cidades. Camadas e mais camadas de terra, concreto e poeira fixadas ali como se documentassem a história daquele lugar.
E ainda mais interessante pensar nas pessoas, com suas camadas de ossos, músculos e pele; têm seu passado registrado em rugas, cicatrizes, tatuagens..
Continuei pensando no mendigo, na cidade, nas rugas..
Faltam-me ainda conclusões.
um dia de nada
nada de cá nem de lá..
nem pra fazer nem pra olhar
com gosto apenas de mexerica, sem nada a mais
nada pra mim ao fundo, a tocar..
dia chuvoso, esquisito, quieto demais pra ser hoje
tão comum que passa despercebido
nada de mais que merecesse ser escrito
mas prefiro contar, tenho medo da memória um dia se acabar..
tecendo idéias

Agora o pensamento voa enquanto o tempo se arrasta.
É como se eu estivesse longe, muito longe daqui.
E lá de trás do inabitado monte
eu posso ver tudo e todos,
e saber de tudo.
Saber o que a humanidade ainda não sabe.
Saber até o que ninguém nunca vai saber.
Mas isso de nada adianta,
porque lá no monte não tem ninguém.
E as pessoas que estão aqui não acreditam em mim.
Mas nem por isso eu desisto de ir lá
e de tentar saber tudo,
ou quase tudo.
Porque eu ainda não consegui entender
os sentimentos das pessoas
e nem porque
ninguém mais consegue chegar até lá.
anotações rápidas
"Livros, boa música, em frente a uma bela vista
qualquer coisa capaz de entorpecer a mente,
ou que me traga um pouco de alento..
Quanto tempo será que demora um mês pra passar?"
(originalmente postado em 23/04/06)